Depois de uma temporada na “terrinha”, o jovem Gabriel está de volta ao Brasil. Aprender a falar o português falado em Portugal, e agora reaprender o português daqui proporciona situações engraçadas, mas ele pensa em retornar ao país europeu.
Gabriel Birnbaum, de 18 anos, fala de um jeito apressado um português engraçado. Sotaque de Portugal misturado ao empenho de ser entendido e de entender o português que falamos aqui no Brasil.
Ele está de volta ao país depois de seis anos morando em Lisboa. O jovem mudou-se para a terra de nossos descobridores aos 12. Seu pai foi dois anos antes, para se estabilizar por lá. Ele sempre morou em Bertioga, litoral do estado de São Paulo com a avó materna, até que decidiu juntar-se ao pai em um país até então desconhecido. Com os pais separados, foi preciso de uma autorização da mãe para que ele pudesse ir morar fora.
Tudo certo, passaporte na mão e malas prontas, ninguém imaginou que haveria grandes problemas com a mudança. Afinal, Brasil e Portugal falam a mesma língua, o português, certo? Errado!
A maior barreira encontrada por Gabriel na nova casa foi a do idioma. Há palavras lá que têm outro significado aqui, e vice e versa. 'Fato' em Portugal, quer dizer terno, traje, por exemplo. 'Vou à casa de banho', ele costuma dizer no Brasil, quando se ausenta para ir ao banheiro, nas conversas na sala de casa com os quatro irmãos que já não via há seis anos.
Agora, de volta a sua terra natal, Gabriel sente outra vez os problemas com o idioma.
Um estranho no ninho
'Estou me sentindo em outro país', diz, um pouco deslocado. Há diferenças também na forma como ele estrutura algumas frases. Ele fala rápido e às vezes sai uma palavra estranha que arranca risadas de quem conversa com ele.
Outra novidade para o então pré-adolescente Gabriel foi enfrentar uma nova escola: do colégio estadual sem estrutura do Brasil, para um excelente colégio público de Portugal. Lá, as escolas públicas têm, só para efeito de comparação, catracas com cartões magnéticos na entrada para controlar a assiduidade dos alunos, e aulas de inglês, francês e espanhol. 'Nas aulas de história de Portugal, por exemplo, íamos de auto carro até os locais onde aconteceram as passagens estudadas', relembra, com brilho nos olhos. Logo se corrige: é assim que são chamados os ônibus por lá.
Ele não pôde acabar o ensino médio em Portugal, e logo na primeira semana de volta ao Brasil matriculou-se na escola estadual mais próxima, o Belegarde, no centro de Bertioga. No primeiro dia de aula, ficou horrorizado com a forma como os alunos tratam os professores e com o fato de os jovens fumarem livremente pela escola. Em Portugal, ele poderia ter escolhido estudar em uma escola escocesa que havia perto da casa onde morava em Lisboa – preferiu não frequentá-la porque teria de usar saia, o kilt, traje típico escocês. Aqui no Brasil, o que mais incomoda Gabriel é o fato de ser obrigado a conviver com dezenas de alto-falantes de celulares pela escola, irradiando música com estilos dos quais ele não aprecia, como por exemplo, funk.
O ensino recebido em Portugal lhe deu segurança: Gabriel fala com desenvoltura e tem uma bagagem cultural para conversar sobre os mais diversos assuntos. E sua fluência em inglês e francês talvez facilite um emprego de professor de idiomas.
Jovem comum
Gabriel não sentiu diferença no quesito divertimento. 'Meus amigos e eu íamos à disco', conta ele sobre quando saía para a “balada”. Em termos de música também não há muitas diferenças. 'Lá também impera a soberania cultural americana. As mesmas músicas de artistas americanos que vocês ouvem aqui tocam lá'. Ele se declara antiamericano, e reconhece que lá também há uma valorização do que é de fora como sendo melhor, assim como também ocorre por aqui.
Por falar em música, mesmo estando lá, Gabriel não se desligou por inteiro do Brasil. É comum artistas brasileiros fazerem shows em Lisboa e em outras cidades portuguesas. Ivete Sangalo, Maria Gadú e outros se apresentam para enormes platéias de brasileiros que emigraram em busca de uma vida melhor. 'Quando tem show de artista brasileiro as avenidas de Lisboa ficam lotadas'. O Rock In Rio, que volta à cidade que dá nome ao festival de música mais famoso do mundo também já aconteceu duas vezes em Lisboa. 'Eu fui no Rock In Rio 2008, mas não pra ver os artistas, e sim pra encher a cara'.
Intenções de voltar
A experiência de morar em outro país foi enriquecedora para Gabriel. Conheceu gente de várias partes do mundo. Portugal recebe imigrantes de várias partes da Europa, Ásia e África. Fez amigos brasileiros, angolanos, e outros de diversas nacionalidades. Deu a ele também uma visão mais ampla do Brasil. “Algumas pessoas lá em Portugal me perguntavam se aqui nós vivíamos em cima de árvores”.
Mesmo estando feliz por estar de volta e poder pela primeira vez passar o Natal e o Ano Novo com os irmãos por parte de mãe – os abraços das festas de fim de ano eram compartilhados por telefone com a família do Brasil, e ele sempre virava o ano antes, por conta do fuso-horário – seus planos ainda são de voltar. 'Me sinto mais português', admite com cara de quem se decepcionou como Brasil encontrado na volta.
*Texto produzido para a revista laboratório Terra Estrangeira, da disciplina Revista do curso de Jornalismo, da Universidade Santa Cecília - UNISANTA.
*Texto produzido para a revista laboratório Terra Estrangeira, da disciplina Revista do curso de Jornalismo, da Universidade Santa Cecília - UNISANTA.
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