A moça branca, corpo voluptuoso cheio de tatuagens, de pouco menos de 1,70m, ganhava mais uns bons 20cm de altura com seu exótico topete no alto da cabeça. A maquiagem de olhos demarcados, e um piercing que imitava a pinta de Marilyn Monroe compunham um divertido visual retrô, tão diferente da maioria das cantoras atuais, plastificadas, saídas da mesma forma industrial.
Amy Winehouse despediu-se dos holofotes jovem, aos 27 anos. Mesma idade de Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix e Kurt Cobain. Todos mortos em consequência do uso excessivo de drogas. Todos lembrados como artistas geniais que não souberam lidar com o monstro da fama.
Com apenas dois discos de estúdio lançados, Amy teve, ainda em vida, o reconhecimento da crítica e do público que merecia.
Conseguiu fazer uma releitura moderna e interessantíssima do soul e do jazz da época de ouro da Motown. Seu carisma, aliado a sinceras letras e toques de funk e reggae fizeram dela uma estrela em ascensão. Mas Amy deixou que o vício em álcool e drogas calasse uma das vozes mais marcantes do início do século.
Frank, lançado em 2003 no Reino Unido já mostrava o potencial da artista. Mas foi mesmo Back To Black, de 2007, que fez o mundo parar para ouvir Rehab, já lançada como clássico, que falava como a cantora resistia em ser mandada para a reabilitação pela família. (They tried to make me go to rehab, but I said 'no, no, no' / Tentaram me mandar pra reabilitação, eu disse "não, não, não"). Um ano antes, em 2006, Amy perdeu sua avó. Foi nessa época que a cantora começou a se envolver com álcool e drogas.
O álbum, aclamado pela crítica, ganhou cinco prêmios Grammy, façanha nunca conseguida antes por uma artista britânica. Amy não pôde receber os troféus na cerimônia realizada nos Estados Unidos. Não era bem vinda no país por causa de seu 'comportamento'.
A partir daí foram uma sucessão de escândalos, internações, bebedeiras e vexames públicos, e Amy virou prato cheio para os sensacionalistas tablóides britânicos. Cada trapalhada de Amy era comemorada e comentada pelos apreciadores da decadência humana.
A morte de Amy parecia esperada, não só pela imprensa e pelos fãs, pela família também. Seu pai sempre aparecia na mídia dizendo que a filha estava cada vez pior, que os médicos haviam dado alguns meses de vida, ou algo de gênero. Um site americano fazia um bolão para ver quem acertaria quando Amy morreria.
O curioso é que todos assistiam a Amy cavar sua própria sepultura, e não faziam nada para impedir.
É verdade que tentaram interná-la, mas ela logo saía e era vista em um pub londrino com boas garrafas à sua volta, ou até caída pela manhã em alguma esquina. Não devem ter pensado pelo lado financeiro: Amy, se estivesse sóbria, renderia ainda muitos outros excelentes álbuns.
Amy estava, um ano antes de sua morte, debilitada e aparentemente doente. Alimentava sem cobrar nada, a mídia, e a nossa morbidade. É uma pena.
Terminou sua grande curta carreira tragicamente, como grandes estrelas. A morte por consequência do uso de drogas mistificou a figura de Amy jovem, extravagante e transgressora. 'Eu te disse que eu era encrenca', cantava, sem reservas.
Guardemos dela sua música.

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