Tanah Corrêa desenvolve várias tarefas. É ator, pai, diretor de teatro e cinema, roteirista e aos 70 anos, ele tem muita história para contar.
Por Vagner de Lima
Athanazildo Corrêa Neto, ou simplesmente Tanah Corrêa, é um santista de coração. Nascido em Bauru, veio para Santos ainda criança. E foi nesta cidade que começou os primeiros passos em sua premiada carreira de ator e diretor.
Tanah vem de uma família na qual a arte era apresentada às crianças no meio das brincadeiras, e assim também criou seus filhos: levando-os consigo para atrás das coxias.
Ao longo dos seus 70 anos de vida, dirigiu premiadas peças de teatro, fez participações em filmes e telenovelas como ator e diretor, trabalhou com gente como Plínio Marcos e Regina Duarte, dirigiu a Encenação da Fundação da Vila de São Vicente, foi secretário de Cultura de Santos e membro da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura.
Nessa entrevista, concedida gentilmente em seu apartamento na Ponta da Praia em Santos, que tem uma privilegiada vista de toda a orla Santista, Tanah fumou três cigarros durante mais de uma hora de conversa, e relembrou - com uma memória afiada - entre outras coisas, como foi ser convidado para dirigir uma peça de Mirian Rios, ex-mulher de Roberto Carlos. Um detalhe: foi o próprio Roberto quem o convidou.
Tanah fala também do orgulho que sente do filho e também ator Alexandre Borges, conhecido por suas atuações em telenovelas da TV Globo, e da honra de ser homenageado e virar tema de enredo da escola de samba santista X-9, vencedora do Carnaval 2011.
Você nasceu em Bauru. Como veio para Santos? Fale um pouco sobre sua infância.
Meus pais se separaram e a família da minha mãe tinha uma casa em Santos, então viemos morar aqui. Meu avô era uma artista múltiplo, tocava violino, cantava. Minhas tias faziam teatro em casa. Não posso dizer o quanto eles influenciaram minha carreira, mas minha família me mostrou uma bagagem que não era comum entre as famílias na época.
Como você viu que queria fazer teatro, como começou na carreira?
Quem começou a fazer teatro amador primeiro foi a minha irmã. Fui pra São Paulo, e lá comecei a trabalhar como vendedor de livros para me sustentar. Vi no jornal um anúncio de um curso de teatro e me inscrevi aleatoriamente. Me envolvi com o grupo e foi assim que comecei no teatro.
Como foi sua estréia no teatro profissional?
Fui demitido do meu emprego na Petrobras e fui para São Paulo. Lá reencontrei amigos, inclusive o Plínio Marcos e comecei a procurar emprego. Um amigo meu estava montando uma peça chamada 'O Santo Inquérito', com texto do Dias Gomes, direção e adaptação do Flávio Rangel e tinha Regina Duarte como atriz principal. O Flávio estava precisando de um assistente de direção e eu fiz uma entrevista com ele. Nos demos bem, tivemos uma química e assumi o cargo de assistente. Até aí já havia feito umas quinzes peças no teatro de amadores, e essa foi minha primeira peça no teatro profissional.
Houve uma época em que você tinha vários espetáculos sendo apresentados, não é?
Tinha montado 'Os Saltimbancos' e 'A maravilhosa estória do sapo Tarô-Bequê' em São Paulo. O espetáculo 'Os Saltimbancos' recebeu convite para ser apresentado no Rio. Lá montei também um espetáculo chamado 'Viveiro de Pássaros', em parceria com o Braguinha, com músicas dele. Fiquei com dois espetáculos no Rio. Um dia recebi um recado para que eu ligasse para o Roberto Carlos, o cantor. Eu não acreditei, achei que fosse uma brincadeira, o pessoal de teatro brinca muito. Eu liguei e de fato atendeu a secretária do Roberto Carlos. Ela marcou um dia para que eu fosse na casa do Roberto, na Gávea, onde ele mora até hoje. Fui até lá e na entrada havia cinco seguranças. Me apresentei e eles me deixaram subir, o Roberto estava me esperando. Eu subi, ele morava no último andar, toquei a campainha, me deixaram entrar e eu me sentei. De repente vieram pela porta o Roberto e a Mirian Rios, que na época era casada com ele. Ele me cumprimentou 'ô bicho', daquele jeito dele. Eu fiquei meio assustado em ver aquele ícone popular na minha frente. Ele me disse que vinha falando pra Mirian fazer teatro, e tiveram a ideia dela fazer teatro para crianças para começar. Eles tinham ido assistir aos meus espetáculos no Rio e queriam que eu fosse o diretor da Mirian. Ela não tinha ideia de nada, nem de texto. A partir daí fizemos um estudo e apresentei para eles uma peça chamada 'O sonho de Alice'. Isso demorou um pouco, porque o Roberto viajava, fazia shows, era complicado. Chegou uma hora que a dramaturgia estava pronta, mas faltavam as músicas, as melodias. Eu tinha só uma letra feita. Ele acabou gostando e fiz todas as letras. O Eduardo Laje e o Erasmo Carlos também ajudaram. Isso tudo foi antes da Mirian fazer televisão, e ela foi, inclusive, indicada a prêmios como atriz revelação com esse espetáculo.
Você atuou em peças do Plínio Marcos e foi o fundador do Teatro Plínio Marcos, em São Paulo. Como era sua relação com ele?
Conheci o Plínio na minha juventude aqui em Santos. Ele morava a três, quatro quadras da minha casa, em um conjunto habitacional. Nós nos conhecemos nas peladas de futebol na praia, jogávamos bola juntos. O Plínio sempre foi uma figura meio estranha, era diferente dos outros garotos da época, se vestia mais à vontade, ia a circos, ao teatro. Para o resto dos garotos era estranho o jeito como ele se comportava. Tive a oportunidade de encenar a peça Barrela em 1978, quando uma série de pessoas, encabeçadas pelo falecido Francisco Milanni, se uniram para encená-la, vinte anos após ela ter sido censurada. Eram apresentações clandestinas. Vendíamos ingressos de mão em mão e, no dia das apresentações, fechávamos a porta do teatro e só abríamos para quem estava com o nome na lista, porque ainda havia perigo de prisão. Na época do teatro de amadores já tínhamos contato. Eu quis montar outra peça do Plínio, mas ele disse que eu ainda não estava pronto.
A maioria dos seus trabalhos é como diretor. Você prefere mais ficar por trás das câmeras?
Eu não gosto de trabalhar como ator porque é um trabalho que exige uma continuação, você fica comprometido em continuar um ano, um período de dedicação à peça. Já o trabalho de direção tem mais maleabilidade, você pode até fazer outros trabalhos de direção ao mesmo tempo. Fiz algumas coisas como ator, mas prefiro a direção.
Que trabalhos você fez na TV?
Eu fiz O Rei do Gado, a primeira fase, fiz diversas participações nos Saltimabancos, dos Trapalhões, inclusive o Renato Aragão ia sempre ver a peça para adaptar para o cinema. Também fiz Mangueira, Meu Amor para a TV Brasil e A Maravilhosa Estória do Sapo Tarô-Bequê, para a TV Educativa.
Que trabalhos você fez em cinema?
Tive participações pequenas em cinema. Fiz O Invasor, Mangueira, Meu Amor, que depois foi para a televisão, fiz Um Copo de Cólera, com meu filho Alexandre e Júlia Lemertz.
Como foi para você dirigir a encenação da fundação da Vila de São Vicente?
A primeira foi em 1998, e depois em 2008 e 2009. A encenação, antes da chegada do Márcio França na prefeitura, era muito restrita ao público de São Vicente. Quando ele assumiu, resolveu transformar em um espetáculo de proporção maior, de repercussão nacional. Ele procurou, por meio dos seus assessores, alguém que pudesse transformar o espetáculo. E eu fui chamado. Chegamos aqui e começamos a projetar. Uma das características do espetáculo era ser encenado durante o dia porque São Vicente não tinha equipamentos para encenação à noite. Sugeri ao Márcio que me desse o último dia da encenação de 1998 para que eu fizesse à noite e pedi os equipamentos da prefeitura de Santos emprestados. E até hoje a apresentação é feita à noite, e é um espetáculo lindo. O projeto é muito gostoso porque envolve atores e atrizes da Baixada Santista toda, muita gente participa, e os atores conhecidos que vêm se envolvem com os atores regionais. É muito bom.
Como foi sua passagem pela Secretaria de Cultura de Santos, em 1984?
Primeiro foi uma surpresa, porque eu não tinha nenhuma intenção de ter um cargo público. O meu projeto era dar mais apoio à área cultural e valorizar os talentos de Santos. Fizemos muitas coisas, como regulamentar os cursos dados pela Secretaria, que eram todos por indicação. O Teatro Municipal dava privilégios aos grupos de fora e nós mudamos isso, passamos a privilegiar os grupos locais. Quando chegamos havia dois grupos de teatro, quando saímos havia trinta. Quando entramos, dez pessoas assistiam aos espetáculos locais, quando saímos, eram lotados. O que mudou muito hoje foi o cinema. Temos aí o Curta Santos, que revela muitos talentos.
Como foi sua passagem pela Comissão Nacional de Incentivo à Cultura?
Eu comecei na Comissão nos últimos dois anos do governo FHC, eu fui representando a área teatral. Quando o Gilberto Gil assumiu o Ministério da Cultura no governo Lula, deixamos o cargo à disposição, mas o Gilberto me pediu para ir à Brasília e me pediu para continuar. Fiquei mais quatro anos. Não se ganha nada, apenas uma ajuda de custo, passagens de avião, hospedagem, alimentação. As reuniões aconteciam duas vezes por mês, dependendo do número de projetos existentes para serem analisados. Eram geralmente 200, 300 projetos para passarem pela análise em três dias, então era muito cansativo. A dificuldade da Lei Rouanet (A Lei Rouanet é uma politica de incentivos fiscais que possibilita a empresas e cidadãos aplicarem uma parte do Imposto de Renda devido em ações culturais) é que dificilmente uma empresa quer ligar sua imagem a uma artista que é desconhecido. Posso garantir que 98% dos projetos apresentados são aceitos, mas muito poucos são realizados, porque é muito difícil captar os recursos junto às empresas.
Como o senhor vê o cenário cultural na Baixada Santista hoje?
Não existe um isolamento do cenário cultural, a Baixada Santista é um retrato do cenário de todo o Brasil. Eu acho que o povo brasileiro ainda está no experimento do doce que se chama televisão. A televisão domina e dita a linguagem da produção cultural. Isso dificulta a verdadeira importância das raízes culturais, principalmente nos estados mais urbanos. Isso é ruim para os estados menos urbanos, eles não conseguem transformar isso em consumismo, não em ação cultural. Como na Bahia, que o trio elétrico começou com um carrinho e hoje envolve tanta gente que existe até uma corda na qual as pessoas que estão dentro têm que pagar. Todos os estados do nordeste têm uma raiz cultural muito forte, que os estados mais desenvolvidos não têm. Há um distanciamento das nossas raízes. Quando não se tem esse reconhecimento da identidade cultural, valorizamos mais o que é de fora. Antes se falava menos disso, hoje pelo menos se fala mais sobre o assunto.
Que conselho você daria para quem quer ser ator?
Abdicação, renúncia. Ser atriz ou ator não é fácil. Você vai perder festas, precisa se concentrar no estudo e na formação. Um milhão de passos começam com o primeiro. É difícil ver alguém dizendo que o pai quis que ele fosse ator ou atriz. Isso parte de você, então é preciso se dedicar para levar esse ideal adiante.
Onde você acredita que há mais talentos? TV, teatro ou cinema?
Talento não se encontra em um lugar específico. Mas a formação vem do teatro. É no teatro que o ator aprende a construir um personagem, onde pode esmiuçar o texto.
Como seu filho Alexandre Borges começou na carreira de ator? Foi por influência sua?
Tenho dez filhos, todos eles iam comigo para a coxia. Até mesmo nos espetáculos proibidos eu os levava. Não via problemas em eles ajudarem na técnica. Alexandre deslanchou depois de entrar para grupos de teatro. A minha filha Georgia também fez TV e teatro, e hoje tem uma escola. E tem o André que também é ator.
Quando você vê o Alexandre na televisão, o que sente?
É um prazer muito grande, porque a gente vê a seriedade com que ele leva o trabalho de ator. E, olha, vou ser sincero, o trabalho dele na TV não me surpreende porque eu o conheço como ator. O que surpreende é como ele não se deslumbrou com a fama, com a exposição, ver como ele continua o mesmo, como trata o público com respeito.
Como foi para você ser homenageado pela X-9?
Foi uma surpresa. Na verdade eles me pediram. Fui levar um enredo e eles recusaram, porque diziam ter outro na cabeça. E esse enredo era uma homenagem para mim. Mesmo sem esse enredo já seria uma homenagem, o desfile foi uma homenagem, ganhar então... Foi uma honra pra mim como xisnoveano. Sempre torci pela escola, tenho uma ala do teatro na escola desde 1976. Entrei na X-9 aos seis anos de idade e tenho um carinho muito grande por ela, que é minha escola de coração. Sempre torço pelas escolas de samba, elas são trincheiras na defesa da cultura brasileira.
- Entrevista para a revista Culturama, em março de 2011, produzida pelos alunos do 3º ano de Comunicação Social - Jornalismo, da Universidade Santa Cecília, Unisanta, na disciplina de Revista.