19 de setembro de 2011

Foi bom, mas podia ter sido melhor

Sábado, 17 de setembro de 2011, cheguei à Arena Anhembi por volta das quatro da tarde. A fila, gigante, avisava a quem não sabia que ali ocorreria em breve um grande evento. Algumas horas depois a cantora Rihanna se apresentaria no local pela primeira vez no Brasil.

Os portões da arena foram abertos depois das seis da tarde, a noite indo e o friozinho chegando. Um DJ assumiu o posto de mestre de cerimônia com a missão de animar o público presente antes da atração principal, mas acabou sendo vaiado por alguns fãs impacientes, que queriam ver logo a estrela da noite.

Marcado para começar às 21h 30, Rihanna só subiu ao palco às 22h 40. 'Quem ela pensa que é pra atrasar tanto, a Madonna?' soltou uma fã, irritada com a demora da diva. 'O Chris Brown devia ter te batido mais!', gritou outra mais engraçadinha, arrancando risos de quem estava perto.

Luzes apagadas, surgem nos telões as primeiras projeções: o show havia começado. Rihanna surgiu com um maiô preto, blusa listrada, óculos escuros, meia arrastão e salto altos dentro de um grande globo cantando 'Only Girl', primeiro single do disco Loud, do qual se baseia o show.


Depois, foi uma sucessão de hits grudentos, que a cantora de Barbados emplacou ao longo de sua breve carreira de cinco anos. O público, a maioria de jovens gays e garotas, baixou a guarda e se entregou ao carisma da popstar.

'Disturbia', 'Shut up & Drive', 'Man Down', 'S&M', Rihanna não deixou nenhum de seus grandes sucessos de fora.

O Brasil foi o único país a receber a Loud Tour na América do Sul. O show apresentado aqui não foi o mesmo apresentado antes nos Estados Unidos. O palco era menor e tinha limitações. Os elevadores usados no palco originalmente por exemplo, sumiram no show apresentado no Anhembi. A cada pausa entre as músicas surgia a esperança de uma surpresa, mas nem de roupa a cantora trocou, para tristeza dos fãs, acostumados a várias trocas de roupa durante esse tipo de espetáculo pop. A pouca interação da cantora com a platéia também a deixou distante dos fãs: em um determinado momento ela desceu do palco para chegar mais próximo da platéia, mas um fã puxou o seu cabelo, deixando-a visivelmente irritada. Pecou por isso.

Rihanna canta razoavelmente bem, mas sua voz perde a força frente à grandeza de grandes estádios e arenas. Em compensação, sua presença de palco e carisma compensa a deficiência vocal, aliada a sensuais coreografias com seus bailarinos, que fizeram a alegria dos fãs, nos fez pular e espantou o frio durante a uma hora e meia da apresentação.

Portugal que me aguarde. Tenho intenções de voltar!

Depois de uma temporada na “terrinha”, o jovem Gabriel está de volta ao Brasil. Aprender a falar o português falado em Portugal, e agora reaprender o português daqui proporciona situações engraçadas, mas ele pensa em retornar ao país europeu.

Gabriel Birnbaum, de 18 anos, fala de um jeito apressado um português engraçado. Sotaque de Portugal misturado ao empenho de ser entendido e de entender o português que falamos aqui no Brasil.


Ele está de volta ao país depois de seis anos morando em Lisboa. O jovem mudou-se para a terra de nossos descobridores aos 12. Seu pai foi dois anos antes, para se estabilizar por lá. Ele sempre morou em Bertioga, litoral do estado de São Paulo com a avó materna, até que decidiu juntar-se ao pai em um país até então desconhecido. Com os pais separados, foi preciso de uma autorização da mãe para que ele pudesse ir morar fora.

Tudo certo, passaporte na mão e malas prontas, ninguém imaginou que haveria grandes problemas com a mudança. Afinal, Brasil e Portugal falam a mesma língua, o português, certo? Errado!

A maior barreira encontrada por Gabriel na nova casa foi a do idioma. Há palavras lá que têm outro significado aqui, e vice e versa. 'Fato' em Portugal, quer dizer terno, traje, por exemplo. 'Vou à casa de banho', ele costuma dizer no Brasil, quando se ausenta para ir ao banheiro, nas conversas na sala de casa com os quatro irmãos que já não via há seis anos.
Agora, de volta a sua terra natal, Gabriel sente outra vez os problemas com o idioma.

Um estranho no ninho

'Estou me sentindo em outro país', diz, um pouco deslocado. Há diferenças também na forma como ele estrutura algumas frases. Ele fala rápido e às vezes sai uma palavra estranha que arranca risadas de quem conversa com ele.

Outra novidade para o então pré-adolescente Gabriel foi enfrentar uma nova escola: do colégio estadual sem estrutura do Brasil, para um excelente colégio público de Portugal. Lá, as escolas públicas têm, só para efeito de comparação, catracas com cartões magnéticos na entrada para controlar a assiduidade dos alunos, e aulas de inglês, francês e espanhol. 'Nas aulas de história de Portugal, por exemplo, íamos de auto carro até os locais onde aconteceram as passagens estudadas', relembra, com brilho nos olhos. Logo se corrige: é assim que são chamados os ônibus por lá.

Ele não pôde acabar o ensino médio em Portugal, e logo na primeira semana de volta ao Brasil matriculou-se na escola estadual mais próxima, o Belegarde, no centro de Bertioga. No primeiro dia de aula, ficou horrorizado com a forma como os alunos tratam os professores e com o fato de os jovens fumarem livremente pela escola. Em Portugal, ele poderia ter escolhido estudar em uma escola escocesa que havia perto da casa onde morava em Lisboa – preferiu não frequentá-la porque teria de usar saia, o kilt, traje típico escocês. Aqui no Brasil, o que mais incomoda Gabriel é o fato de ser obrigado a conviver com dezenas de alto-falantes de celulares pela escola, irradiando música com estilos dos quais ele não aprecia, como por exemplo, funk.

O ensino recebido em Portugal lhe deu segurança: Gabriel fala com desenvoltura e tem uma bagagem cultural para conversar sobre os mais diversos assuntos. E sua fluência em inglês e francês talvez facilite um emprego de professor de idiomas.

Jovem comum

Gabriel não sentiu diferença no quesito divertimento. 'Meus amigos e eu íamos à disco', conta ele sobre quando saía para a “balada”. Em termos de música também não há muitas diferenças. 'Lá também impera a soberania cultural americana. As mesmas músicas de artistas americanos que vocês ouvem aqui tocam lá'. Ele se declara antiamericano, e reconhece que lá também há uma valorização do que é de fora como sendo melhor, assim como também ocorre por aqui.

Por falar em música, mesmo estando lá, Gabriel não se desligou por inteiro do Brasil. É comum artistas brasileiros fazerem shows em Lisboa e em outras cidades portuguesas. Ivete Sangalo, Maria Gadú e outros se apresentam para enormes platéias de brasileiros que emigraram em busca de uma vida melhor. 'Quando tem show de artista brasileiro as avenidas de Lisboa ficam lotadas'. O Rock In Rio, que volta à cidade que dá nome ao festival de música mais famoso do mundo também já aconteceu duas vezes em Lisboa. 'Eu fui no Rock In Rio 2008, mas não pra ver os artistas, e sim pra encher a cara'.


Intenções de voltar

A experiência de morar em outro país foi enriquecedora para Gabriel. Conheceu gente de várias partes do mundo. Portugal recebe imigrantes de várias partes da Europa, Ásia e África. Fez amigos brasileiros, angolanos, e outros de diversas nacionalidades. Deu a ele também uma visão mais ampla do Brasil. “Algumas pessoas lá em Portugal me perguntavam se aqui nós vivíamos em cima de árvores”.

Mesmo estando feliz por estar de volta e poder pela primeira vez passar o Natal e o Ano Novo com os irmãos por parte de mãe – os abraços das festas de fim de ano eram compartilhados por telefone com a família do Brasil, e ele sempre virava o ano antes, por conta do fuso-horário – seus planos ainda são de voltar. 'Me sinto mais português', admite com cara de quem se decepcionou como Brasil encontrado na volta.


*Texto produzido para a revista laboratório Terra Estrangeira, da disciplina Revista do curso de Jornalismo, da Universidade Santa Cecília - UNISANTA.

24 de julho de 2011

A grande curta carreira de Amy


A moça branca, corpo voluptuoso cheio de tatuagens, de pouco menos de 1,70m, ganhava mais uns bons 20cm de altura com seu exótico topete no alto da cabeça. A maquiagem de olhos demarcados, e um piercing que imitava a pinta de Marilyn Monroe compunham um divertido visual retrô, tão diferente da maioria das cantoras atuais, plastificadas, saídas da mesma forma industrial.
Amy Winehouse despediu-se dos holofotes jovem, aos 27 anos. Mesma idade de Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix e Kurt Cobain. Todos mortos em consequência do uso excessivo de drogas. Todos lembrados como artistas geniais que não souberam lidar com o monstro da fama.
Com apenas dois discos de estúdio lançados, Amy teve, ainda em vida, o reconhecimento da crítica e do público que merecia.
Conseguiu fazer uma releitura moderna e interessantíssima do soul e do jazz da época de ouro da Motown. Seu carisma, aliado a sinceras letras e toques de funk e reggae fizeram dela uma estrela em ascensão. Mas Amy deixou que o vício em álcool e drogas calasse uma das vozes mais marcantes do início do século.
Frank, lançado em 2003 no Reino Unido já mostrava o potencial da artista. Mas foi mesmo Back To Black, de 2007, que fez o mundo parar para ouvir Rehab, já lançada como clássico, que falava como a cantora resistia em ser mandada para a reabilitação pela família. (They tried to make me go to rehab, but I said 'no, no, no' / Tentaram me mandar pra reabilitação, eu disse "não, não, não"). Um ano antes, em 2006, Amy perdeu sua avó. Foi nessa época que a cantora começou a se envolver com álcool e drogas.
O álbum, aclamado pela crítica, ganhou cinco prêmios Grammy, façanha nunca conseguida antes por uma artista britânica. Amy não pôde receber os troféus na cerimônia realizada nos Estados Unidos. Não era bem vinda no país por causa de seu 'comportamento'.
A partir daí foram uma sucessão de escândalos, internações, bebedeiras e vexames públicos, e Amy virou prato cheio para os sensacionalistas tablóides britânicos. Cada trapalhada de Amy era comemorada e comentada pelos apreciadores da decadência humana.
A morte de Amy parecia esperada, não só pela imprensa e pelos fãs, pela família também. Seu pai sempre aparecia na mídia dizendo que a filha estava cada vez pior, que os médicos haviam dado alguns meses de vida, ou algo de gênero. Um site americano fazia um bolão para ver quem acertaria quando Amy morreria.
O curioso é que todos assistiam a Amy cavar sua própria sepultura, e não faziam nada para impedir.
É verdade que tentaram interná-la, mas ela logo saía e era vista em um pub londrino com boas garrafas à sua volta, ou até caída pela manhã em alguma esquina. Não devem ter pensado pelo lado financeiro: Amy, se estivesse sóbria, renderia ainda muitos outros excelentes álbuns.
Amy estava, um ano antes de sua morte, debilitada e aparentemente doente. Alimentava sem cobrar nada, a mídia, e a nossa morbidade. É uma pena.
Terminou sua grande curta carreira tragicamente, como grandes estrelas. A morte por consequência do uso de drogas mistificou a figura de Amy jovem, extravagante e transgressora. 'Eu te disse que eu era encrenca', cantava, sem reservas.
Guardemos dela sua música.

16 de abril de 2011

Um santista ilustre

Tanah Corrêa desenvolve várias tarefas. É ator, pai, diretor de teatro e cinema, roteirista e aos 70 anos, ele tem muita história para contar.
Por Vagner de Lima



Athanazildo Corrêa Neto, ou simplesmente Tanah Corrêa, é um santista de coração. Nascido em Bauru, veio para Santos ainda criança. E foi nesta cidade que começou os primeiros passos em sua premiada carreira de ator e diretor.

Tanah vem de uma família na qual a arte era apresentada às crianças no meio das brincadeiras, e assim também criou seus filhos: levando-os consigo para atrás das coxias.

Ao longo dos seus 70 anos de vida, dirigiu premiadas peças de teatro, fez participações em filmes e telenovelas como ator e diretor, trabalhou com gente como Plínio Marcos e Regina Duarte, dirigiu a Encenação da Fundação da Vila de São Vicente, foi secretário de Cultura de Santos e membro da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura.

Nessa entrevista, concedida gentilmente em seu apartamento na Ponta da Praia em Santos, que tem uma privilegiada vista de toda a orla Santista, Tanah fumou três cigarros durante mais de uma hora de conversa, e relembrou - com uma memória afiada - entre outras coisas, como foi ser convidado para dirigir uma peça de Mirian Rios, ex-mulher de Roberto Carlos. Um detalhe: foi o próprio Roberto quem o convidou.

Tanah fala também do orgulho que sente do filho e também ator Alexandre Borges, conhecido por suas atuações em telenovelas da TV Globo, e da honra de ser homenageado e virar tema de enredo da escola de samba santista X-9, vencedora do Carnaval 2011.

Você nasceu em Bauru. Como veio para Santos? Fale um pouco sobre sua infância.

Meus pais se separaram e a família da minha mãe tinha uma casa em Santos, então viemos morar aqui. Meu avô era uma artista múltiplo, tocava violino, cantava. Minhas tias faziam teatro em casa. Não posso dizer o quanto eles influenciaram minha carreira, mas minha família me mostrou uma bagagem que não era comum entre as famílias na época.

Como você viu que queria fazer teatro, como começou na carreira?

Quem começou a fazer teatro amador primeiro foi a minha irmã. Fui pra São Paulo, e lá comecei a trabalhar como vendedor de livros para me sustentar. Vi no jornal um anúncio de um curso de teatro e me inscrevi aleatoriamente. Me envolvi com o grupo e foi assim que comecei no teatro.

Como foi sua estréia no teatro profissional?

Fui demitido do meu emprego na Petrobras e fui para São Paulo. Lá reencontrei amigos, inclusive o Plínio Marcos e comecei a procurar emprego. Um amigo meu estava montando uma peça chamada 'O Santo Inquérito', com texto do Dias Gomes, direção e adaptação do Flávio Rangel e tinha Regina Duarte como atriz principal. O Flávio estava precisando de um assistente de direção e eu fiz uma entrevista com ele. Nos demos bem, tivemos uma química e assumi o cargo de assistente. Até aí já havia feito umas quinzes peças no teatro de amadores, e essa foi minha primeira peça no teatro profissional.

Houve uma época em que você tinha vários espetáculos sendo apresentados, não é?

Tinha montado 'Os Saltimbancos' e 'A maravilhosa estória do sapo Tarô-Bequê' em São Paulo. O espetáculo 'Os Saltimbancos' recebeu convite para ser apresentado no Rio. Lá montei também um espetáculo chamado 'Viveiro de Pássaros', em parceria com o Braguinha, com músicas dele. Fiquei com dois espetáculos no Rio. Um dia recebi um recado para que eu ligasse para o Roberto Carlos, o cantor. Eu não acreditei, achei que fosse uma brincadeira, o pessoal de teatro brinca muito. Eu liguei e de fato atendeu a secretária do Roberto Carlos. Ela marcou um dia para que eu fosse na casa do Roberto, na Gávea, onde ele mora até hoje. Fui até lá e na entrada havia cinco seguranças. Me apresentei e eles me deixaram subir, o Roberto estava me esperando. Eu subi, ele morava no último andar, toquei a campainha, me deixaram entrar e eu me sentei. De repente vieram pela porta o Roberto e a Mirian Rios, que na época era casada com ele. Ele me cumprimentou 'ô bicho', daquele jeito dele. Eu fiquei meio assustado em ver aquele ícone popular na minha frente. Ele me disse que vinha falando pra Mirian fazer teatro, e tiveram a ideia dela fazer teatro para crianças para começar. Eles tinham ido assistir aos meus espetáculos no Rio e queriam que eu fosse o diretor da Mirian. Ela não tinha ideia de nada, nem de texto. A partir daí fizemos um estudo e apresentei para eles uma peça chamada 'O sonho de Alice'. Isso demorou um pouco, porque o Roberto viajava, fazia shows, era complicado. Chegou uma hora que a dramaturgia estava pronta, mas faltavam as músicas, as melodias. Eu tinha uma letra feita. Ele acabou gostando e fiz todas as letras. O Eduardo Laje e o Erasmo Carlos também ajudaram. Isso tudo foi antes da Mirian fazer televisão, e ela foi, inclusive, indicada a prêmios como atriz revelação com esse espetáculo.

Você atuou em peças do Plínio Marcos e foi o fundador do Teatro Plínio Marcos, em São Paulo. Como era sua relação com ele?

Conheci o Plínio na minha juventude aqui em Santos. Ele morava a três, quatro quadras da minha casa, em um conjunto habitacional. Nós nos conhecemos nas peladas de futebol na praia, jogávamos bola juntos. O Plínio sempre foi uma figura meio estranha, era diferente dos outros garotos da época, se vestia mais à vontade, ia a circos, ao teatro. Para o resto dos garotos era estranho o jeito como ele se comportava. Tive a oportunidade de encenar a peça Barrela em 1978, quando uma série de pessoas, encabeçadas pelo falecido Francisco Milanni, se uniram para encená-la, vinte anos após ela ter sido censurada. Eram apresentações clandestinas. Vendíamos ingressos de mão em mão e, no dia das apresentações, fechávamos a porta do teatro e só abríamos para quem estava com o nome na lista, porque ainda havia perigo de prisão. Na época do teatro de amadores já tínhamos contato. Eu quis montar outra peça do Plínio, mas ele disse que eu ainda não estava pronto.

A maioria dos seus trabalhos é como diretor. Você prefere mais ficar por trás das câmeras?

Eu não gosto de trabalhar como ator porque é um trabalho que exige uma continuação, você fica comprometido em continuar um ano, um período de dedicação à peça. Já o trabalho de direção tem mais maleabilidade, você pode até fazer outros trabalhos de direção ao mesmo tempo. Fiz algumas coisas como ator, mas prefiro a direção.

Que trabalhos você fez na TV?

Eu fiz O Rei do Gado, a primeira fase, fiz diversas participações nos Saltimabancos, dos Trapalhões, inclusive o Renato Aragão ia sempre ver a peça para adaptar para o cinema. Também fiz Mangueira, Meu Amor para a TV Brasil e A Maravilhosa Estória do Sapo Tarô-Bequê, para a TV Educativa.

Que trabalhos você fez em cinema?

Tive participações pequenas em cinema. Fiz O Invasor, Mangueira, Meu Amor, que depois foi para a televisão, fiz Um Copo de Cólera, com meu filho Alexandre e Júlia Lemertz.

Como foi para você dirigir a encenação da fundação da Vila de São Vicente?

A primeira foi em 1998, e depois em 2008 e 2009. A encenação, antes da chegada do Márcio França na prefeitura, era muito restrita ao público de São Vicente. Quando ele assumiu, resolveu transformar em um espetáculo de proporção maior, de repercussão nacional. Ele procurou, por meio dos seus assessores, alguém que pudesse transformar o espetáculo. E eu fui chamado. Chegamos aqui e começamos a projetar. Uma das características do espetáculo era ser encenado durante o dia porque São Vicente não tinha equipamentos para encenação à noite. Sugeri ao Márcio que me desse o último dia da encenação de 1998 para que eu fizesse à noite e pedi os equipamentos da prefeitura de Santos emprestados. E até hoje a apresentação é feita à noite, e é um espetáculo lindo. O projeto é muito gostoso porque envolve atores e atrizes da Baixada Santista toda, muita gente participa, e os atores conhecidos que vêm se envolvem com os atores regionais. É muito bom.

Como foi sua passagem pela Secretaria de Cultura de Santos, em 1984?

Primeiro foi uma surpresa, porque eu não tinha nenhuma intenção de ter um cargo público. O meu projeto era dar mais apoio à área cultural e valorizar os talentos de Santos. Fizemos muitas coisas, como regulamentar os cursos dados pela Secretaria, que eram todos por indicação. O Teatro Municipal dava privilégios aos grupos de fora e nós mudamos isso, passamos a privilegiar os grupos locais. Quando chegamos havia dois grupos de teatro, quando saímos havia trinta. Quando entramos, dez pessoas assistiam aos espetáculos locais, quando saímos, eram lotados. O que mudou muito hoje foi o cinema. Temos aí o Curta Santos, que revela muitos talentos.

Como foi sua passagem pela Comissão Nacional de Incentivo à Cultura?

Eu comecei na Comissão nos últimos dois anos do governo FHC, eu fui representando a área teatral. Quando o Gilberto Gil assumiu o Ministério da Cultura no governo Lula, deixamos o cargo à disposição, mas o Gilberto me pediu para ir à Brasília e me pediu para continuar. Fiquei mais quatro anos. Não se ganha nada, apenas uma ajuda de custo, passagens de avião, hospedagem, alimentação. As reuniões aconteciam duas vezes por mês, dependendo do número de projetos existentes para serem analisados. Eram geralmente 200, 300 projetos para passarem pela análise em três dias, então era muito cansativo. A dificuldade da Lei Rouanet (A Lei Rouanet é uma politica de incentivos fiscais que possibilita a empresas e cidadãos aplicarem uma parte do Imposto de Renda devido em ações culturais) é que dificilmente uma empresa quer ligar sua imagem a uma artista que é desconhecido. Posso garantir que 98% dos projetos apresentados são aceitos, mas muito poucos são realizados, porque é muito difícil captar os recursos junto às empresas.

Como o senhor vê o cenário cultural na Baixada Santista hoje?

Não existe um isolamento do cenário cultural, a Baixada Santista é um retrato do cenário de todo o Brasil. Eu acho que o povo brasileiro ainda está no experimento do doce que se chama televisão. A televisão domina e dita a linguagem da produção cultural. Isso dificulta a verdadeira importância das raízes culturais, principalmente nos estados mais urbanos. Isso é ruim para os estados menos urbanos, eles não conseguem transformar isso em consumismo, não em ação cultural. Como na Bahia, que o trio elétrico começou com um carrinho e hoje envolve tanta gente que existe até uma corda na qual as pessoas que estão dentro têm que pagar. Todos os estados do nordeste têm uma raiz cultural muito forte, que os estados mais desenvolvidos não têm. Há um distanciamento das nossas raízes. Quando não se tem esse reconhecimento da identidade cultural, valorizamos mais o que é de fora. Antes se falava menos disso, hoje pelo menos se fala mais sobre o assunto.

Que conselho você daria para quem quer ser ator?

Abdicação, renúncia. Ser atriz ou ator não é fácil. Você vai perder festas, precisa se concentrar no estudo e na formação. Um milhão de passos começam com o primeiro. É difícil ver alguém dizendo que o pai quis que ele fosse ator ou atriz. Isso parte de você, então é preciso se dedicar para levar esse ideal adiante.

Onde você acredita que há mais talentos? TV, teatro ou cinema?

Talento não se encontra em um lugar específico. Mas a formação vem do teatro. É no teatro que o ator aprende a construir um personagem, onde pode esmiuçar o texto.

Como seu filho Alexandre Borges começou na carreira de ator? Foi por influência sua?

Tenho dez filhos, todos eles iam comigo para a coxia. Até mesmo nos espetáculos proibidos eu os levava. Não via problemas em eles ajudarem na técnica. Alexandre deslanchou depois de entrar para grupos de teatro. A minha filha Georgia também fez TV e teatro, e hoje tem uma escola. E tem o André que também é ator.

Quando você vê o Alexandre na televisão, o que sente?

É um prazer muito grande, porque a gente vê a seriedade com que ele leva o trabalho de ator. E, olha, vou ser sincero, o trabalho dele na TV não me surpreende porque eu o conheço como ator. O que surpreende é como ele não se deslumbrou com a fama, com a exposição, ver como ele continua o mesmo, como trata o público com respeito.

Como foi para você ser homenageado pela X-9?

Foi uma surpresa. Na verdade eles me pediram. Fui levar um enredo e eles recusaram, porque diziam ter outro na cabeça. E esse enredo era uma homenagem para mim. Mesmo sem esse enredo já seria uma homenagem, o desfile foi uma homenagem, ganhar então... Foi uma honra pra mim como xisnoveano. Sempre torci pela escola, tenho uma ala do teatro na escola desde 1976. Entrei na X-9 aos seis anos de idade e tenho um carinho muito grande por ela, que é minha escola de coração. Sempre torço pelas escolas de samba, elas são trincheiras na defesa da cultura brasileira.

- Entrevista para a revista Culturama, em março de 2011, produzida pelos alunos do 3º ano de Comunicação Social - Jornalismo, da Universidade Santa Cecília, Unisanta, na disciplina de Revista.

17 de janeiro de 2011

A Inquisição do Século XXI


A inquisição do século XXI a qual vou me referir neste texto não é propriamente um movimento armado semelhante às missões lideradas pela Igreja séculos atrás. Trata-se de uma postura adotada não só pela instituição católica, mas também pelas Igrejas evangélicas: tentar a todo custo impedir as conquistas sociais dos homossexuais.
Não vou colocar em discussão o DIREITO das Igrejas de impedir ou condenar o que eles chamam de 'prática homossexual'. As doutrinas têm todo o DIREITO de manifestar o que elas consideram certo ou errado, e banir os tais 'pecadores' de seus templos. Mas elas têm também o DEVER de fazê-lo dentro de seus templos. O que não podem é usar sua força e influência política para barrar projetos de lei ou conquistas sociais, que são reconhecidamente DIREITOS de todos os cidadãos: religiosos, gays, lésbicas, heterosexuais. De todos.
Não vou listar aqui projetos de lei e conquistas gays que não saem do papel por força dos grupos religiosos, porque são muitos.
Casamento gay (Leia-se 'união civil'. Ninguém quer entrar na igreja de véu e grinalda. Reconhecer a união civil entre dois homens ou duas mulheres é um DIREITO que deve valer para todos.), adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo, leis que punam a homofobia, etc.
A Igreja, aliás, tem por hobby se meter em problemas que não lhe cabe. Além da questão gay, aborto (problema de saúde pública, antes de mais nada), avanços científicos (que só farão bem à humanidade), legalização das drogas, etc, em tudo a Igreja se acha no DIREITO de interferir, e baseada nos seus dogmas, se acha no DIREITO de ditar o que o outro DEVE fazer.
Se não é a favor do casamento gay, não se case com pessoas do mesmo sexo! Se não é a favor do aborto, não aborte! Se não é a favor das drogas, não as use! Mas não impeça o DIREITO de seu semelhante de ir e vir, fazer, e viver da forma que quiser.
O Brasil, infelizmente, ainda engatinha nessas questões. Até a Argentina, nossa vizinha de fronteiras, já legalizou o casamento gay. Diversos países da Europa também. Aqui, somos obrigados a assistir calados as bancadas religiosas da Câmara e do Senado barrarem os projetos que tratam do assunto. Temos, todos nós cidadãos, o DIREITO - resguardada as escolhas religiosas de cada um - de ter um estado verdadeiramente LAICO.
Enquanto isso, vamos assistindo todos os dias pela televisão, homossexuais sendo agredidos no rosto com lâmpadas fluorescentes em avenidas paulistas da vida. Gays sendo expulsos de casa. Fatos alimentados, é pertinente lembrar, por uma cultura machista e homofóbica mantida ao longo da história pelo domínio da Igreja.
É irônico que quem vendeu 'pedacinhos do céu', que mandou à fogueira milhares de mulheres acusadas injustamente de bruxaria, que liderou cruzadas que tiraram a vida de milhares, que cerceou as descobertas científicas, e cometeu tantos outros 'pecados' ao longo da história ainda queira impor um poder que não tem mais.
Esquecem de uma das frases mais famosas daquele que é o motivo da Igreja existir: 'Amai-vos uns aos outros como eu vos amei'.

4 de outubro de 2010

O palhaço é você, eleitor!

Cem milhões de brasileiros foram às urnas decidir quem nos representará nos próximos quatro anos.

Representantes da Organização da Nações Unidas e de países de regime democrático vieram ao país acompanhar a realização da talvez, maior eleição democrática do mundo.
Prisões decorrentes de compras de voto - sim, elas ainda são praticadas - e de propaganda irregular ou boca de urna ocorreram, mas em pequena escala. Comparecemos às urnas tranquilamente, sem grandes eventos negativos.
Mas a transparência e eficiência do sistema eleitoral, que deveria servir de orgulho à nação, infelizmente não se traduz nas escolhas feitas por alguns eleitores nas urnas.
Assistimos um desfile de palhaços, ex-BBBs, jogadores de futebol, mulheres fruta, cantores esquecidos pelo mercado fonográfico, parentes de apresentadores e uma infinidade de projetos de celebridades se candidatando a vagas nos mais variados cargos de poder.

Leandro, do KLB, tentou sem sucesso uma vaga na Assembléia Legislativa, Mulher Pêra usou de sensualidade no horário eleitoral, Maguila nocauteou Tiririca para ganhar votos 'política não é palhaçada', e Raul Gil tentou emplacar seu filho.

Alguns deles foram eleitos, como é o caso de Tiririca, que zombava da democracia e da nossa cara todos os dias no horário eleitoral - bancado pelo nosso dinheiro, lembremos - fazendo palhaçadas que não tinham graça nenhuma, na esperança de conquistar votos. E conseguiu. Foi eleito com mais de um milhão e quatrocentos mil votos.

Tiririca conseguiu os votos de protesto de eleitores insatisfeitos com a política com a ajuda de uma inteligente campanha publicitária.

Com o slogan 'Vote no Tiririca, pior que tá não fica', ele arrebatou os votos de eleitores insatisfeitos com a política, os tais votos de protesto. Muitos desses eleitores nem devem saber que Tiririca funcionou como um 'puxador de votos' de seu partido, arrastando com ele outros candidatos menos votados para Brasília.
Alguns candidatos considerados 'ficha suja', que terão seus votos congelados até serem julgados elegíveis ou não, também foram lembrados pelos eleitores, como Paulo Maluf, que não é segredo pra ninguém, tem, não a ficha suja, mas imunda.
 É lamentável quem ainda vejamos cidadãos brincando com a única arma que lhe garante um futuro melhor para o país. Se a intenção de eleger um palhaço era protestar contra a sujeira dos donos do poder, o objetivo não foi alcançado.
O palhaço foi você, eleitor, que vai passar quatro anos sendo representado por um cidadão que 'não sabe nem o que faz um deputado'.
Nossa democracia está sim mais forte, e o fortalecimento dela foi claro nesta eleição. Fomos votar mais conscientes - apesar das exceções - do valor de cada número digitado na urna. 
Somos ainda uma jovem democracia, e um país melhor não se faz de uma hora pra outra.
Palhaços foram eleitos, mas um grande passo foi dado.



21 de setembro de 2010

Domingo na TV: fuja para as colinas

A programação da televisão aberta aos domingos zomba da inteligência do telespectador. Não apenas beira a cafonice, se afunda nela.
Não importa em que canal você sintoniza, tudo parece igual, um programa cópia do outro. Não dá pra discernir qual veio primeiro e qual imitou.

As loiras já desistiram, mas Didi ainda investe nas crianças
Xuxa, Angélica e Eliana já se conscientizaram que as crianças de hoje não são 'retardadas' como as das décadas passadas. Mesmo assim, a Globo ainda insiste em manter no ar o Didi, mesmo suas piadas não fazendo ninguém rir. Já não faziam rir no fim da década de 80, imaginem então se farão rir crianças e adolescentes de hoje, acostumados a uma cultura digital.



Depois vem o Faustão com suas vídeo cassetadas e uma enxurrada de ex: ex-aquilo, ex-isso, ex-BBB. E ainda tem o elenco da emissora, que além de encher linguiça, vêm divulgar a programação da emissora. Enquanto isso, o apresentador, que também é ex (ex-gordo), faz piadas mais sem graças do que o ex-trapalhão que vem antes dele na grade de programação.

As atrações do programa do Faustão se resumem a ex-BBBs e ao elenco da Globo.

Mudando de estação, na Record, Tudo é possível. É possível até trazer todos os domingos, um bando de mulheres gostosas e homens bombados pintados à mão por um artista plástico. Mas não é só pra exibir os corpos não, é didático: cada modelo vem fantasiado como uma profissão.


Ana Hickman exibe todos os domingos o quadro 'Essa Moda Pega' que mostra vários modelos nus, pintados por um artista plástico. Essa atração já fazia parte da atração na época de Eliana, antiga apresentadora do programa.


Já no SBT é que eu acho que a coisa tá pior. Seu domingo legal, não tem nada de legal.
Oops, tem sim. Tem as reprises de telegramas da época em que Gugu ainda era o apresentador, e que a equipe não tem não a boa vontade de dar uma editada, para que o material pareça, ao menos, mais novo.

Da década de 90, o 'Telegrama Legal' é exibido no SBT. Nem edição a produção faz. Parece 'sessão mofo'.

Pulando para a Record, Gugu continua com os mesmos quadros da época que era contratado do dono do Baú. Gincanas ridículas com perguntas estapafúrdias como 'O que está no começo do meio e no final do fim?' (A resposta é a letra M), dão vontade de jogar o controle remoto no aparelho de tv. Sem falar das matérias de trinta minutos explorando um caso 'raro', 'exclusivo', 'surpreendente' ou outro adjetivo que possa chamar a atenção de quem muda de canal.

Gugu, ao lado de uma menina portadora de doença rara: explorar casos comoventes é especialidade do apresentador.

É muito curioso também como fenômenos musicais comumente viram pautas para programas dominicais. Tem artista fazendo sucesso? Show internacional no Brasil? Michael jackson morreu? Aí começam a surgir os concursos de cover.


A cantora americana Beyoncé foi tema de concurso durante meses. Após a morte de Michael Jackson, surgiam covers do rei do pop em todas as atrações de TV, e mais recentemente, o jovem Justin Bieber é a nova onda. 

Mas o mais absurdo é ver que a audiência da TV ainda se sustenta em cima de concursos de piadas, na maioria sem graça alguma, sobre loiras, negros, pobres, nordestinos, mulatas, gays e uma série de grupos excluídos, todos cheios de clichês, que só reiteram a visão preconceituosa de parte da sociedade.


Concursos de piadas: comediantes sofríveis, só servem para reafirmar clichês.

Coisas lamentáveis como essas que somos obrigados a ver só mostram que mesmo depois de seis décadas de televisão no Brasil, o principal meio de comunicação, informação e educação do país - de quase duzentos milhões de habitantes, grande parte dessa, analfabeta - ainda trata o público como idiota. Televisão, antes de entreter, deveria educar.

Se você tiver um livro para ler (se soube ler), leia-o aos domingos. Se não, fuja para as colinas. Só não ligue seu televisor.

NOTA IMPORTANTE: Não que a televisão aberta seja 'menos pior' durante a semana, mas é que, no domingo, a coisa piora. (E sim, algumas coisas na televisão se salvam. Poucas, mas se salvam)